Uma das Freguesias mais antigas de Lisboa, a Freguesia de S. José, hoje assim chamada, situava-se em 1373 na área compreendida entre os cômoros de Santana de um lado, e de S. Roque do outro. A 27 de Abril de 1546 a confraria mudou-se para uma ermida, que os mesmos confrades haviam fundado à sua custa, no vale de Andaluz, com licença de 6 de Julho de 1545 do arcebispo de Lisboa D. Fernando de Vasconcellos e Menezes, num chão doado em 15 de Maio também de 1545, a que deram o nome de S. José de Entre as Hortas ou de S. José dos Carpinteiros, fora dos muros da antiga cidade um pouco adiante das Portas de Santo Antão, hoje Rua de S. José. Quando no começo do Sec. XVI, as conquistas, a navegação e o comércio com o Oriente, trouxeram para o reino riquezas e comodidades de uma vida até então ainda não sonhadas, o aumento da população atraída para Lisboa originou a necessidade de criação de novas Freguesias. Assim, a Freguesia de S. José foi criada pelo Cardeal D. Henrique em 20 de Novembro de 1567, altura em que começaram a ser exercidas as funções paroquiais. Rua direita de S. Joze até o arco das portas S. Antaõ; rua da Mancebia; Beco de S. Luiz, rua dos Condes, Calçada da Gloria, Calçada do Lavre, rua das Pretas, rua da Palmeira, rua detráz da Anunciada, rua do salitre, rua do Telhal, rua da fé, rua do Carriaõ, rua da Esperança, rua da Charid.e , ruade S. António, rua de S. Barbera, Calçada de S. António, rua do Cazal das Moças, rua da Cisterna, rua do Mancedo, ou da Oliveirinha, rua d’Ametada, rua do Passadisso, rua da Praga, rua nova da Gloria, Beco do Siqueiro, Beco do Tem Tem, traveça do Assougue, traveça da Cotovia, traveça do Despacho, traveça das Freyras, traveça do Melro, traveça das Parreiras, traveça da Passagem, traveça da Sahida, traveça de Joaõ. do Loureiro; p.e do Val do Pereiro, rua de Santa Martha athe o Chafariz de Andaluz, e m.as Quintas, ortas, q.’ se achaõ dentro seu destrito.
Confina esta fregª. com a da Snrã da Pena, S. Justa, Encarnaçaõ, S. Isabel, e S. Sebastiaõ da Pedreira.”
A primeira sede da Freguesia foi então instalada na pequena Ermida de S. José de Entre as Hortas ou S. José dos Carpinteiros, que como já vimos havia sido fundada em 1546.
O território da nova freguesia era, na maior parte, uma mata cerrada, com algumas hortas, oliveiras e quintas. Apenas a ermida se tornou paroquia, tendo a confraria tratado, à custa dos paroquianos, de alargar a igreja e a transformar na igreja que lá vemos – uma igreja mais espaçosa, tendo a fachada voltada a poente, e situada na então Rua de Santo Antão, logo passado o Largo da Anunciada; É sua proprietária a Irmandade do Patriarca de S. José. Com o terramoto de 1 de Novembro de 1755 a fachada da igreja ficou um pouco danificada, razão pela qual a irmandade do santíssimo mandou reconstrui-la, fazendo esculpir 2 padrões: o do lado do Evangelho dizendo que a irmandade do Santíssimo a havia melhorado depois do terramoto; debaixo deste padrão estão gravados na mesma pedra os utensílios do ofício de pedreiro. O 2º padrão, da parte da Epistola, tem a data em que principiou a confraria e a de quando saiu de Santa Justa para a sua casa; por debaixo vêem-se esculpidas as ferramentas do oficio de carpinteiro.
A fachada conserva ainda um belo medalhão em mármore, com a efígie do padroeiro, e interiormente magníficos azulejos de meados do século XVIII, com diferentes passos da vida de S. José e de Nossa Senhora, e alguns bons mármores.
Também o seu interior teve que ser reparado passando a sede interinamente para uma barraca de madeira no Campo da Horta, por detrás do palácio de Marco António, que se supõe ter pertencido a freiras ou estar contígua à cerca do Mosteiro das Freiras da Anunciada, na qual se colocou o sacrário e onde se exerceram as funções paroquiais.
A freguesia ali se conservou até 22 de Junho de 1757, indo nesse dia, por ordem do patriarca, para a sua antiga igreja e aí se manteve até 1883, data em que foi transferida para a nova Igreja Paroquial. “Começará o destricto desta Parrochia no Arco das Portas de S. Antaõ, e seguindo a rua da Anunciada athé a entrada da rua do Telhal, se seguirá esra athé o Largo das Cazas dos Erdr.os de D. Diniz de Almeyda de donde partindo pela rua do Paçadisso athé a traveça do Macedo, ou rua de S. Boaventura, se seguirá o lado meridional della: e entrando pela nova rua junto às Cazas dos Erdr.os de Marco António, som.e pelo ladomeridional, virá sahir à rua do Salitre; e daqui pela travessa das Vacas de huã e outra p.e athé a nova rua encostada à Cerca do Real Colégio dos Nobres, ficando juntam.e pertencendo-lhe todas as ruas novas q se achaõ na Cotovia, desde a encosta da rua do Moinho de Vento athé a Calçada da Gloria, pela qual descendo athé a rua das Ortas, discorrerà por ella athé o Paço da Inquisiçaõ: pertencendo lhe também a rua dos Condes, ruadas Taypas, rua da Conceição, rua de S. António, rua de N. Snr.a da Gloria, rua do Salitre, rua direita de S. Joseph, rua das Pretas, rua da Fee, rua do Carriaõ, rua da Esperança, rua da Praga, rua da Caridade, rua da Metade, rua de S. Barbara Orta da Mancebia, beco do Tem-tem, Calçada do Lavra, beco do Siqueiro, beco de S. Luís, e todas as mais ruas q dentro do sobredito Lemite se eregirem.” No entanto a 22 de Janeiro de 1780, sob proposta do Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor D. Fernando de Sousa e Silva Cardeal Patriarca, e confirmado por alvará régio de sua magestade em 19 de Abril desse mesmo ano, foi aprovada e confirmada uma nova distribuição de paróquias, onde constam os novos limites da Freguesia, a mensão do desmembramento de parte da Freguesia e o numero de fogos e pessoas existente, como a seguir se transcreve: Cardeal Patriarca em Rubrica Defta Paroquia fe defmembrou huma parte, que fe repartio pelas Freguezias do Coraçaõ de Jefus, e de Santa Jufta, por lhe terem accrefcido muitas, e nobres Propriedades edificadas de novo junto ao Paffeio Público, Praça d’Alegria, e por toda a encofta do Moinho de Vento.
Do outro lado da Rua dos Condes, ficava a grande Casa dos Castelo Melhor.
Completamente arruinadas pelo terramoto, estes palácios nunca foram reconstruidos, e que com a abertura do Passeio Público, desde logo ladeado das ruas oriental e ocidental, se encerrava o ciclo da memória do sítio, dominado pela seiscentista Rua dos Condes.
Os Ericeiras mudaram-se para o Bairro Alto, enquanto os Castelo Melhor se instalaram no outro lado no inicio do vale, aproveitando velhas casas e as vastas terras que aí possuiam. Em 1777, treze anos após a abertura do Passeio Público, iniciava-se a construção de novo e moderno Palácio, desenhado pelo Italiano Francisco Fabri.
Mais tarde, por volta de 1860, o Palácio passa para o Marquês da Foz, que o mandou restaurar por completo, gastando nessas obras uma fortuna, fazendo do já admiravel Palácio, uma residência invejável de Principes. Este Palácio, com elementos de diversos estilos, é actualmente propriedade pública, e nele costumam estar patentes pequenas exposições.
Onde hoje se situa a Av. da Liberdade, corria outrora um esteio de água em direcção ao Tejo.
Tinha o seu começo já fora da muralha da cerca Fernandina, onde hoje se encontra a Rua das Portas de Santo Antão e na altura, a porta do mesmo nome, que dava serventia para o arrabalde e entestava com o extenso caminho que seguia para norte.
A princípio esta porta foi denominada de São Domingos, passando a chamar-se Porta de Santo Antão, logo que os frades Agostinhos desta invocação, fundaram o seu convento em 1400 na carreira de cavalos, que seguia para Benfica.
No ano de 1532 se principiou na igreja de Santa Justa a confraria de S. José, que foi a primeira deste reino, formada por carpinteiros e pedreiros e outros pertencentes ao mesmo ofício, como consta de uma inscrição que está no frontispício da mesma igreja.

Estavamos no ano de 1567, quando o infante D. Henrique, então arcebispo de Lisboa, vendo que o território da freguesia de Santa Justa e Rufina era demasiadamente extenso, determinou desmembrar uma parte para construir uma nova freguesia, e pediu à confraria de S. José para ela se estabelecer na sua ermida. Sendo satisfeito o pedido, ficou assente que a confraria apresentasse o coadjuctor com a aprovação do prelado, o qual devia cantar a missa do dia da festa do seu santo. Durante cerca de 320 anos aí se conservou a sede da Freguesia.
De facto, e de acordo com a “DESCRIPÇÃO COROGRAPHICA DAS PARROCHIAS DA CIDADE DE LISBOA COM OS LEMITES, RUAS, BECOS, E TRAVEÇAS, Q’ CADA HUA DELLAS TINHA ANTES DO TERRAMOTO DE 1. DE NOVEMBRO DE 1755; E TAMBEM COM O NUMERO DE FOGOS, Q’. NELAS EXISTIÃO” texto incluído num livro manuscrito guardado na Torre do Tombo que contém a enumeração dos arruamentos constitutivos e a descrição dos limites das freguesias antes e depois do terramoto de 1755,
“Foy eregida esta Parrochia p.lo Cardial D. Henrique, sendo Arcebispo de Lisboa em 20. de Novembro do anno de 1567., separando-a dos Lemites da de S. Justa na Irmida da invocação do mesmo nome que os Carpinteiros e Pedreiros tinhão fundado em 1545.: Constava o seu destrito antes do dº. Terramoto de 1100. fogos, q’.assistião pelas ruas traveças e becos seguintes.
Freguesia mais campestre que urbana, em razão das inúmeras hortas e quintas que no local muitos fidalgos edificavam, começou então a ser habitada por nobres que, senhores das quintas, aqui erigiam os seus palacetes, e pelos plebeus que, excedentes da capital, nos seus subúrbios se instalavam, de forma que no sec. XVIII já a freguesiaestava muito povoado.
A igreja foi construída no local onde estivera o mosteiro dos frades Agostinhos, que em 1539 o cederam por troca às freiras Dominicanas da Nossa Senhora da Anunciada, que se transferiram para este local da sua primitiva fundação na Costa do Castelo, e que ficou completamente arruinado pelo terramoto de 1755.
Com a instalação das freiras Dominicanas de Nossa Senhora da Anunciada, o nome destas passou ao local onde se situava o mosteiro, e à rua que junto dele seguia.
Esse local foi marcado, no Plano de divisão das freguesias de 1770, no sítio da arruinada igreja do mosteiro e como o terreno pertencia às freiras deste mosteiro, que, tendo-se transferido depois do terramoto para o convento de Sta. Joana, formando com outras a comunidade de freiras desta invocação, a irmandade do S. Sacramento, erecta na freguesia de S. José comprou-o às freiras, por escritura de 25 de Maio de 1765.
Aquele plano estabeleceu a remodelação paroquial em virtude da carta da régia de 18 de Dezembro do ano anterior, e conforme texto incluído no já referido livro manuscrito guardado na Torre do Tombo,

Planta da Freguesia de S.José, de acordo com a remodelação paroquial de 1770, levantada pelo Sargento-mor José António Monteiro de Carvalho
“Começará o deftrito defta Paroquia no Palácio do Excellentiffimo Conde de Provide inclufive; e feguindo por ambos os lados a Rua da Annunciada até á entrada da Rua do Telhal, feguirá efta até o largo das Cafas dos Herdeiros de D. Diniz de Almeida; de donde partinto pela Rua do Paffadiço. Irá encontrar a Traveffs do Macedo exclufive; e retrocedendo àá Rua direita de S. José, caminhará pelo lado direito até á Propriedade de Pedro de Almeida e Fonseca inclufive; e pelo lado efquerdo até á nova Rua, que fe há de abrir junto ás Cafas de Carlos Joaquim de Azevedo; e entrtanto pelo lado Meridional da mesma nova Rua, irá sahir pela Traveffa da Cera na Rua do Salitre, donde voltará fobre o lado efquerdo, e irá entrar na Traveffa das Vacas por hum, e por outro lado até á nova Rua encoftada ao Real Collegio dos Nobres; pertencendo-lhe juntamente todas as Ruas, que fe achaõ na Cotovia defde a encofta da Rua do Moinho de Vento até á Calçada da Gloria, e dahi irá buscar a entrada do Passeio Público pela parte do Rocio; e voltando fobre o lado efquerdo, entrará na Rua dos Condes até encontrar a Rua da Annunciada, e Palácio Excellentissimo Conde de Povolide, onde principiou; pertencendo-lhe todas as mais Ruas, Traveffas, e Becos comprehendidos neste deftricto.
Conta ao prefente 1483 Fógos, e 5756 Peffoas.”
A Igreja foi projectada em 1793, tendo o arquitecto António Fernandes Rodrigues feito um aparatoso projecto que não se executou por demandar grandes despesas. Fez-se depois um novo projecto, que não sendo tão custoso, era contudo elegante.
Começou-se então a construção da nova igreja, mas as obras caminharam com tão pequeno entusiasmo durante todo um século que só em 1862 ou 1863, segundo consta, é que receberam maior impulso, sem que todavia lograssem a conclusão do templo.
Em 1883, apesar dos trabalhos não estarem concluídos, pois faltava ainda construir o corpo da igreja e o coro, foi benzida em 12 de Agosto e para ali se transferiu a freguesia a 15 de Agosto do referido ano de 1883, ficando a antiga igreja de S. José entregue à sua irmandade, continuando ali a exercer-se o culto. Parece que divergências que se deram entre esta irmandade e do Santíssimo abreviaram a mudança da Freguesia.
Próximo do antigo mosteiro, entre o Largo da Anunciada e a rua dos Condes, levantava-se o Palácio da Anunciada, fundado em 1533 por Fernão Alves de Andrade, benfeitor do mosteiro. Mais tarde pertenceu aos Meneses, Condes da Ericeira, ficando então conhecido por Palácio dos Condes da Ericeira ou Palácio dos Ericeiras. Aí esteve então instalado um museu em que se admiravam telas de grandes mestres, tais como Rubens, Ticiano e Corregio. Nos magníficos jardins havia uma cascata, do célebre escultor Bernini, mandada fabricar em Roma pelo conde da Ericeira. A biblioteca do palácio, com mais de 18.000 volumes, fora os manuscritos, era das primeiras do País. A decoração das escadas, as estátuas que ornavam os terraços, as fontes, as grutas e o rico mobiliário faziam desta vivenda uma das notáveis de Lisboa.




