Assinaturas na calçada
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Nos belos e intrincados motivos que adornam os passeios de Lisboa, de vez em quando, esforçando um bocadinho o olho para prestar atenção aos pormenores, vemos algo que escapa ao padrão que se repete quarteirão a quarteirão. Algo que destoa, mas que definitivamente, não é engano. São as assinaturas dos anónimos mestres calceteiros.
Avenida da Liberdade acima (e de preferência pelo lanço ajardinado do lado esquerdo), os nossos olhos são constantemente assaltados por pequenos motivos. Onde o molde dizia um simples enchimento a negro ou branco de uma bola ou de um losango, apareceram os mais variados motivos. Onde devia estar um círculo a negro, aparece um cacho de uvas, uma Cruz de Cristo a evocar o glorioso passado das Descobertas, e até uma estrela de David. No centro dos losangos brancos aparecem a negro, aqui uma flor, ali uma estrela, um pássaro, um boi. Mais difíceis de ver são as cruzes brancas, no centro desses losangos.
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Em frente ao cinema S. Jorge, no meio do sol cinzento, uma cara ri-se para nós. Este motivo não se repete nunca mais. O mestre calceteiro que tratou daquele local esculpiu as pequenas pedras brancas que fazem os olhos, o nariz e a boca desse sol.
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Porém, estas assinaturas anónimas – que foram colocadas por toda a cidade pelos mestres calceteiros para verem a sua arte reconhecida, quer por picardia com os seus pares, quer para mostrar a quem passa que há mais mundos na calçada – estão em vias de extinção. Isto porque obras e buracos se sucedem, bem como o crescimento desregrado de objectos que ocupam o espaço público. As empresas já reproduzem o padrão das calçadas nas tampas das valas técnicas, para evitar dissonâncias. É preciso que, da mesma forma, se comecem a preservar estas assinaturas anónimas, que dão o carácter pessoal aos cantos da cidade.
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