O Ascensor do Lavra
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Vivia-se o ano de 1882. Passara a época dos "omnibus". O caminho de ferro "Larmanjat" entoava o seu canto de cisne e a Companhia Carris, embora mantivesse a tracção animal, procedia já a experiências visando a sua substituição. Lisboa era percorrida por carruagens de várias empresas de transportes que coexistiam num ambiente de competição pelas preferências do público quando não pela supremacia sobre todas as outras. Um ponto comum as ligava - o tipo de tracção. Carros da Carris ou da Rippert, do Chora ou da Lusitânia todos utilizavam a tracção animal para se deslocarem. Contudo, frente às rampas mais íngremes, os seus esforços soçobravam.
Em 3 de Junho desse ano foi fundada a Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa a qual, segundo os seus prórios estatutos, se propunha (...) a construção e exploração de ascensores mecânicos, ou planos inclinados, movidos por tracção mecânica (...).
O primeiro a ver a Luz do dia foi o da Calçada do Lavra, com uma inclinação média de 22,9%, estabelecendo ligação entre o Largo da Anunciada e a Travessa do Forno do Torel.
Em meados de Abril de 1884 já as obras da sua construção tinham terminado. O sistema adoptado, era de cremalheira e cabo por contrapeso de água. Consistia, fundamentalmente, em 2 carros, ligados por um cabo subterrâneo, que subiam e desciam alternada e simultâneamente em 2 vias paralelas assentes ao nível do chão. Na parte externa das linhas, encostadas aos carris, existiam 2 cremalheiras nas quais entravam os dentes de rodas dentadas fixadas nos eixos dos carros. O movimento era determinado pelo peso da água que na Estação Superior era adicionada ao carro descendente em reservatório apropriado e despejada quando no Largo da Anunciada. Cada carro, com capacidade para transportar 24 passageiros, estava equipado com um travão manual e um automotor que funcionava de imediato caso se desse a fractura do cabo.
A inauguração teve cabo no dia 19 de Abril de 1884 após vistoria camarária presidida pelo engenheiro Ressano Garcia. Já nessa altura a Companhia procedia à montagem de uma máquina a vapor destinada a acudir a qualquer interrupção no fornecimento de água; a 15 de Novembro de 1885 a Direcção ordenava que começasse a funcionar a título experimental, pesando-se o combustível, a fim de concluir sobre o que seria mais conveniente utilizar, a água ou o carvão. Os resultados devem ter sido favoráveis à máquina a vapor pois que, em 1898, funcionavam no Lavra duas caldeiras sendo uma de origem alemã, fabricada pela maschinnenfabrick Essling e a outra de origem suiça, construída por Theodor Bell & Co.
Alguns incidentes ensombraram os primeiros anos de vida deste ascensor. O mais grave ocorreu em Dezembro de 1897 quando os dois carros e grande parte da linha ficaram inutilizados devido a uma fractura no cabo provocada pela utilização simultânea dos dois travões. Quando meses mais tarde voltou a funcionar os carros tinham, ao que parece, novas carroçarias a que era necessário levantar os estribos para não roçarem nas paredes.
Em 1912 a Companhia, remodelada já desde 1884 com o nome de Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, assinou com a Câmara Municipal um novo contrato de concessão pelo qual lhe era permitida a electrificação de todas as suas linhas. Tendo assegurado o fornecimento de energia através da Central Eléctrica de Santos, propriedade da Carris, iniciou as obras em 1914.
O processo adoptado era também extensivo aos ascensores da Glória e Bica tendo-se os trabalhos prolongado por mais de um ano.
A via era composta pelos carris em que assentavam os rodados dos carros e pela fenda onde passava o cabo de aço que unia os carros, tendo a cremalheira desaparecido. Os carros fornecidos pela Electric Car Cº., pesavam cerca de 10 toneladas e funcionavam por meio de 2 motores eléctricos de 25 cavalos cada, ligados em série, de modo que só se podiam pôr em andamento com a manobra conjunta dos seus guarda-freios bastando contudo a intervenção de um só para os imobilizar. Estavam equipados com 2 tipos de travão, um, de garra, que actuava apertando os carris centrais entre duas sapatas e o outro por pressão sobre os carris. A transmissão da corrente aos motores era feita através de pantógrafos instalados no tejadilho. As carroçarias eram de madeira cor de mogno e com bancos dispostos longitudinalmente, prevendo-se uma lotação de 20 a 22 passageiros sentados.
Em Dezembro de 1915 o ascensor do Lavra retomou o serviço. Em 15 de Dezembro de 1926, por dissolução da Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa passou a ser propriedade da Companhia Carris.
Os trabalhos de conservação a que periodicamente a Companhia o submete deram aos carros novas roupagens passando o amarelo a ser a cor dominante.
Tendo comemorado um século de existência em 1984, o ascensor da Calçada do Lavra detém o privilégio de ser o 1º transporte que Lisboa viu defrontando com êxito uma das suas encostas mais íngremes e encontra-se, desde Fevereiro de 2002, classificado como Monumento Nacional.
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